Agenor
Que sirva pra preencher o tempo de alguém.
Se bem que esse blog já tá às moscas, mesmo....
Agenor desceu do ônibus e ficou parado ali. Não queria sair do ponto. Pra quê? Não estava chovendo, o sol do fim de tarde não afetaria uma célula sequer de sua pele. Claro que não sabia o que era célula. Se alguém mencionasse a palavra, provavelmente a associaria com aquele telefone que as pessoas usam fora de casa. Mas não se preocupe, não vou ser absurda o suficiente pra dizer que Agenor desconhecia o celular.
Mesmo desconhecendo as células.
Não tinha muita gente perto dele. Ninguém iria reparar então que o blusão que vestia estava cheio daquelas bolinhas de roupa velha. Nem que a calça jeans estava com uma marca de ferro de passar roupa perto da panturrilha. Muito menos reparar na sua barba mal-feita....
... Ou em suas olheiras fundas, seus olhos fechados prontos a passarem por um maremoto a qualquer segundo.
Soltou a pasta que segurava na mão. Não precisava de mais nada daquilo, agora. Não teria mais que carimbar papéis, dizer “Guichê quatro, por favor. Não, não sei onde ele está, poderia aguardar um instantinho no final daquele corredor?
Estava tudo acabado. Por causa de uma xícara de café.
E é nesse momento que ele se perguntava por que é que o café não poderia ficar grudado na xícara, ao invés de cair no colo do chefe da sessão?
Daí ele não teria que pegar o ônibus de volta pra casa e resolver ficar parado no ponto.
Qual é o problema em ficar parado, então?
Melhor viver dentro da própria cabeça do que ver Maria desapontada.
Olhou pro relógio. Bonito, ele. Poderia vender, penhoar, e assim adiar a má surpresa por mais algum tempo.
Seis e trinta e cinco. Poderia adiar, mas a hora ia chegar mais cedo ou mais tarde.
Começou a caminhar, então. Um passo na frente do outro, sem parar. Na direção de casa. Tudo bem, ainda faltava bastante. Três quarteirões. Haveria de passar na padaria, como o usual.
Talvez se parasse de pensar as coisas ficassem mais fáceis.
As ruas estavam do mesmo jeito, como se a vida dele estivesse do mesmo jeito. Os orelhões quebrados, as calçadas vazias...Vazias?
Sentada com a cabeça nos joelhos, havia uma garotinha. Agenor não estava habituado a ver garotinhas no caminho de casa. A se encontrar com o pior que poderia ter acontecido em sua vida também não, mas aquilo era realmente impensável. Afinal de contas, do pior a gente tem medo. Do impensável...Bom, no impensável a gente não pensa, certo? Se sentiu um gênio por causa disso.
E... Ah. Estava chorando, a pobrezinha. Quantos anos, oito, nove? A idade que sua filhinha teria, se Maria não tivesse perdido-a no quarto mês de gravidez. Pobre Antônia.
Se aproximou devagarzinho, para não assusta-la. Abaixou-se e deu um sorriso sereno, que esperou sinceramente que pudesse disfarçar a barba mal-feita e a roupa fora-de-moda.
- Olá!
Silêncio.
- O meu nome é Agenor, estou indo tomar um lanche na padaria. Quer me acompanhar num sonho bem grande?
Não sabia exatamente porque tinha dito aquilo. Só supôs que crianças gostassem de sonhos, e que sonhos pudessem fazê-las parar de chorar. E afinal de contas, já havia encontrado com O Pior. O que mais poderia acontecer?
Ela jogou os cabelos pretos, ondulados e enosados para trás e fitou-o por alguns instantes. Era branca, bastante pálida até. Tinha os olhinhos de um castanho bem claro, que deixavam a cara de choro um quadro mais bonito do que talvez deveria ser. Não tinha a pele suja, mas a roupa estava imunda. Encardida. A pior roupa, pensou Agenor. A pior roupa nos olhos mais bonitos olhando a pessoa que passou pelo pior momento.
-Eu gosto muito de sonhos. Meu pai e minha mãe, quando não estavam se batendo ou brigando porque qualquer um dos dois tinha bebido de mais, às vezes me davam algumas moedas pra que eu pudesse comprar um.
-São muito gostosos. Então por que estava chorando?
-Eles não existem mais. Eu ia morar com a minha tia, mas ela disse que odeia crianças, especialmente as que tem cara de sagui.
-Você não tem onde morar?
-Não.
-Nem dinheiro pra comer?
-Não.
Era, de fato, a pior situação.
E Agenor descobriu como podia ser feliz.

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